Sempre me interessaram muito as criações dos estilistas brasileiros, principalmente suas fusões com as artes e a comunicação na conceituação e apresentação dos desfiles, mesmo a cada ano mais envelopada em propósitos mercadológicos, o SPFW e o Fashion Rio – para ficar nos dois principais eventos de moda do país – supreendem não só pela qualidade de suas criações mas pela força do discurso.
Em entrevista à Folha de São Paulo veiculada no sábado, dia 04, o poeta Décio Pignatari aponta a moda brasileira como o campo de vanguarda dos dias atuais. Pignatari, que completa 80 anos no dia 20 desse mês é um dos idealizadores, ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, do Concretismo: movimento estético que teve suas vertentes na música, literatura e artes plásticas e defendia a fusão entre a forma e o conteúdo, na criação de uma nova linguagem.
A tangente entre moda e arte já rendeu boas invenções:

Em 1956, o artista Flávio de Carvalho, saiu às ruas de São Paulo de saia, blusa de manga bufante, meia arrastão e sandália. Era o Traje Tropical: a roupa ideal para o homem brasileiro, mais coerente com o nosso clima e contra a moda imposta pelos grandes centros europeus.

Hélio Oiticica, no ano de 1979 cria os Parangolés, capas que, vestidas e movimentadas pelos espectadores se tornavam obras de arte, numa experiência de inserção da arte no cotidiano por meio do vestuário.
Na contra mão um exemplo do além-mar, o estilista inglês Alexander McQueen, em 1999, utiliza um vestido branco como tela para um action painting em plena passarela(incrível), num indício da customização que estava por vir.
Em terras brazucas, Jum Nakao utilizou o branco também em seus elaboradíssimos vestidos de papel vegetal em 2004 que rasgados ao final do desfile apontavam a efemeridade da moda e eternidade da arte documentada no livro A Costura do Invisível.

Ronaldo Fraga, o mais discursivo dos estilistas no outono inverno desse ano deu forma a um desfile-manifesto sobre as condições de trabalho e o risco ao meio ambiente produzidos pela aceleração econômica chinesa.
A sinergia entre a forma e o conteúdo produz – como sinalizam esses escassos exemplos - resultados comunicacionais poderosos: que a moda sirva sempre de inspiração.
Setembro 8, 2007 às 5:12 am
Buenas noticias)